Detalhes
Nome: Pedra da Onça
Bairro: Freguesia
Endereço: Praia da Guanabara – Freguesia (Ilha do Governador), Rio de Janeiro – RJ, 21911-090
Esfera de tombamento: Municipal
Ano: 2026
Ato Municipal: (Em breve)
Status: Tombamento
Autoria: Prefeito Eduardo Cavaliere.

Comentário: No topo da Pedra dos Amores, entre a Praia da Guanabara e a Praia do Bananal, no bairro da Freguesia (Rio de Janeiro/RJ), moradores da Ilha do Governador em meados da década de 1930 homenagearam a história indígena local com um monumento, escolhendo construir a imagem de um gato-maracajá em tributo ao animal que nomeava a etnia indigena nativa, Maracajá, e a própria ilha antes de ser nomeada como Ilha do Governador pelos colonizadores portugueses, antiga Ilha do Gato. A primeira escultura foi esculpida por João Zaco Paraná, tomando como referência um exemplar taxidermizado de um gato-maracajá (Leopardus wiedii wiedii), oriundo do acervo do Museu Nacional, sendo inaugurado com grande evento público em 16 de Maio de 1937, como relata o jornal AMIG (Moraes, 2020).
Em 1965 a escultura foi trocada por conta de avarias do tempo e depredações, aumentando de tamanho e mudando suas proporções, sendo reformado muitas vezes desde então. A escultura é chamada de “Onça” devido às características da estátua: um grande felino com pintas em seu corpo lembrando facilmente uma onça pintada (Santos, 2020), mas de fato sempre se tratou de um gato-maracajá. A falta de plaqueamento e proteção institucional do monumento também influenciaram na desinformação sobre seu nome e intuito original, embora tenha se tornado o maior símbolo da história, cultura e identidade da Ilha do Governador.
A praia da Guanabara/praia da Freguesia encontra-se nas coordenadas 22°47’30” S, 43°10’00” O, na porção nordeste da Ilha do Governador. Em geral ela possui característica dissipativa, ou seja, não há grande intensidade de ondas e energia ao chegar na faixa de areia (Silva et al., 2016). Ainda segundo os autores, ela se estende por 1440 metros no sentido sudoeste-nordeste, sendo considerada a maior praia da Ilha do Governador. Os matacões – grandes blocos de rochas soltas – encontrados no final da praia da Freguesia são granitos com feições arredondadas devido ao processo de intemperismo e erosão (Caetano et al., 2021). Na maior dessas rochas, se encontra o gato maracajá, a fim de dar maior ênfase à estátua. Portanto, preservar este patrimônio é também preservar toda a história geológica e história humana local.
O monumento acompanha uma narrativa tradicional popular repassada à gerações no território. No período colonial, uma mulher indígena Maracajá-Temiminó, nativa da região, tomava banho de mar todos os dias, e com ela sempre estava seu gato-maracajá de estimação. Ele sempre ficava sentado no alto de uma pedra esperando o retorno da índigena para voltarem para aldeia. Um dia a mulher foi nadar, porém não regressou, e o gato-maracajá ficou esperando o restante de sua vida na pedra aguardando o retorno de sua companheira. Existem versões que contam sobre uma figura masculina ligada à mulher, figura paterna ou amorosa, indígena ou portuguesa, teria entrado nas águas e não retornado, levando ela a sair em sua busca e também não mais retornando (Santos, 2020). Não há uma versão fixa da história, que deixa à imaginação insulana se de fato existiu ou não, se motivou a construção do monumento em sua homenagem, ou se foi criada folclóricamente a partir do monumento para lhe dar sentido. De todo modo, a narrativa popular da Pedra da Onça é a história mais popular da Ilha do Governador, reflexo da estima local pelo monumento e sua simbologia sobre a história, memória popular, companheirismo e amor.
Para além dessa narrativa popular, esse monumento evoca a longa e persistente história indígena na Ilha do Governador, cuja ocupação foi iniciada com a presença de populações sambaquieiras, grupos pescadores-caçadores-coletores que chegaram na baía de Guanabara há cerca de 8.000 anos, aí construindo numerosos montículos de conchas. A partir de cerca de 3.000 antes do presente, estabeleceram-se na ilha populações falantes da língua Tupi, entre as quais, os Maracajá, que ocupavam essa localidade à época da chegada dos europeus (Souza; Buarque, 2019, p.181). Ceramistas e horticultoras, organizavam-se em grandes aldeias, integradas em complexas redes de interação regional. Com as invasões portuguesas e francesas no século XVI, essas populações foram protagonistas dos conflitos que marcaram o processo colonial, permanecendo presentes nos assentamentos históricos pioneiros da Ilha. Relembrada nesse monumento, essa história de longa duração reafirma a Ilha do Governador como um território de memória indígena, onde passado e presente se entrelaçam na construção da identidade local.
Referências:
CAETANO, João Marcus Vale et. al. Geomitologia da Pedra da Onça: Conservação do Patrimônio Natural e Cultural por meio da História do Gato-maracajá, o Verdadeiro Felino da Ilha do Governador, Rio de Janeiro, RJ. In: Anuário do Instituto de Geociências. Rio de Janeiro, BR., v. 44, 2021. DOI: 10.11137/1982-3908_2021_44_40331. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/aigeo/article/view/40331. Acesso em: 4 jul. 2026.
MORAES, Jaime. Pedra da Onça- Década de 1950. In: Página “Ilha do Governador: O passado no presente”. Online: Facebook, 11 set. 2020. Disponível em: https://www.facebook.com/share/p/18ep6SCMwt/. Acesso em 20/05/2026.
SANTOS, Juberto. As três versões da lenda da Pedra da Onça. In: Jornal Ilha Notícias. ed. 2005. Rio de Janeiro: Jornal Ilha Notícias, 4 set. 2020. Disponível em: https://ilhanoticias.com.br/noticia/As_tres_versoes_da_lenda_da_Pedra_da_Onca. Acesso em: 25 ago. 2024.
SILVA, Maria Augusta Martins da; et. al. PRAIAS DA BAÍA DE GUANABARA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Revista Brasileira de Geomorfologia, [S. l.], v. 17, n. 2, 2016. DOI: 10.20502/rbg.v17i2.839. Disponível em: https://rbgeomorfologia.org.br/rbg/article/view/839. Acesso em: 4 jul. 2026.
SOUZA, Marcos André Torres de; BUARQUE, Angela. Olhando para o passado, pensando o futuro: As pesquisas arqueológicas na Ilha do Governador, Rio de Janeiro. In: Revista de arqueologia. v. 32. nº 2. Online: Sociedade de Arqueologia Brasileira, 2019. Disponível em: https://revista.sabnet.org/ojs/index.php/sab/article/view/719. Acesso em: 10/07/2026.
Caio Tenório, Daniele Pecorela, Marcos André, RJ, 07/2026
DECRETO DE TOMBAMENTO:
(Em breve)
Imagens



Fonte: Ilha do Governador – O passado no presente
